Perda gestacional – meu relato de aborto retido

Esse post é um daqueles difíceis de escrever. Mesmo sabendo que esse tipo de coisa acontece com muitas mulheres, a gente nunca pensa que vai acontecer com a gente. Descobrimos nossa perda gestacional com 8 semanas. Desde então minha vida e minha cabeça ficaram totalmente reviradas. Os dias mais difíceis da minha vida até aqui. Se eu escrevo esse texto hoje é para tentar também organizar as coisas internamente.

Foi no dia 15 de julho, no nosso primeiro ultrassom. Deixamos a Mari na escola e fomos para a clínica cheios de expectativa, tão felizes com a vinda do segundo bebê. De certa forma eu me sentia experiente e já tinha uma boa noção de como seria o exame. Daríamos uma conferida no baby, ouviríamos o coração, uma checada para ter certeza de que estava tudo bem.

Começamos o exame e de cara eu saquei que tinha algo errado. A médica procurou o embrião e eu vi nitidamente a bolsa implantada no útero e dentro dela o embrião, em formato de feijãozinho. Acontece que os contornos eram irregulares, como se estivesse borrado, e não tinha movimento nenhum. A médica não dizia nada, mexia o aparelho em silêncio. Logo eu vi que ela procurou os ovários, colocou na tela, escreveu lá ‘ovário esquerdo’, depois achou o direito e fez a mesma coisa, salvando as imagens.

Aí ela retornou para o embrião e não disse nada. Naquele momento eu já sabia, mas não queria aceitar. E se ela ainda não estivesse olhando direito, de perto? E se ela ainda estivesse conferindo outra coisa? Você fica tentando se apegar em alguma coisa para não ver a realidade ali, na sua cara. Foi quando o meu esposo questionou diretamente: ‘Dra, por que a imagem tá meio borrada, essa mancha branca?’ E a médica ‘Então, essa massinha branca que está meio borrada era o embrião de vocês, mas ele parou de se desenvolver. Já procurei batimentos cardíacos, mas ele não tem.’

Nesse momento eu senti como se despencasse, caísse de um precipício muito alto, perdesse o chão. A minha cabeça ficou confusa, como se eu tivesse tomado um murro muito forte. A médica continuou explicando pra gente e eu ali congelada. Balançava a cabeça como se eu estivesse entendendo, mas no fundo era como se eu nem estivesse ali mais. Parecia um pesadelo, desses em que a gente se vê numa situação ruim e fica tentando acordar. Saímos da clínica com o laudo de óbito fetal.

Ligamos para o meu obstetra e ele estava ali perto, na maternidade atendendo. Em 20 minutos nós já estávamos conversando com ele. Eu não conseguia falar nada, chorava copiosamente. Ele nos explicou que aparentemente o embrião tinha morrido há uma semana, que isso é muito comum, que provavelmente ele deveria ter alguma má formação incompatível com a vida. Ele nos deu duas alternativas: esperar que o meu corpo trabalhasse sozinho ou fazer a aspiração uterina no dia seguinte. Optamos por aguardar, na esperança de que meu corpo reagisse ao aborto, expelindo o embrião naturalmente.

Eu pensava na minha gravidez todos os dias. Parei de acariciar a barriga e de conversar com o bebê. De repente eu não estava mais grávida… ou estava? Se ele estava ali dentro ainda, sem vida… eu podia dizer que estava grávida ainda? Pensei tanta coisa! Será que eu não era boa mãe e por isso Deus me puniu? Será que eu merecia isso? Eu queria tanto aquele bebê, por que ele foi tirado de mim?

Eu não conseguia me abrir com as pessoas. Chorava escondido, tentava reagir como se estivesse bem, normal. Ouvi tanta coisa! -‘Foi melhor assim’, -‘Tem tanta coisa pior que isso’, -‘Pelo menos não foi nada com a Mariana’, -‘Já pensou se você tem um bebê deficiente?’, -‘Deus sabe o que faz’, -‘Fica assim não, você vai ter outros filhos ainda’, -‘Será que não perdeu porque amamentava?’, -‘Você tava grávida mesmo, tem certeza?’.

Eu tinha consciência que naquele momento outras pessoas tinham problemas e dores maiores que os meus. Mas ali eu me sentia no fundo do poço, era o meu problema, a minha dor. Mas as pessoas não querem ver a dor da gente. Elas querem te consolar, mas não sabem como. Algumas pessoas negam a dor da gente, como se ignorar os fatos fizesse o problema sumir.

O que eu sentia era uma culpa, uma perda, uma tristeza sem fim. Eu vi o meu embriãozinho, ele existia! Eu estava num luto solitário. A morte ia comigo pra todo lugar, não tinha como fugir, estava dentro de mim. Fiquei com o aborto retido por 3 semana, longos dias de espera. Eu não tinha nenhum sintoma, nenhum sinal do meu corpo. Nenhuma cólica, nenhum sangramento, nada.

Na véspera do procedimento de aspiração eu consegui finalmente conversar em oração com o meu bebê e com Deus. Me despedi, agora o corpo material dele iria se desprender de mim, mas eu nunca iria esquecê-lo. O amava desde o primeiro dia! Agradeci pela oportunidade, apesar de não ter sido capaz de gera-lo como eu gostaria. Pedi a Deus que permitisse que corresse tudo bem. Ele já tinha me tirado o bebê, que permitisse que eu saísse dessa situação com saúde para cuidar da Mariana. Passei a noite em claro, muito choro, muita agonia.

No dia 06 de agosto, sábado, passei pela aspiração uterina. O procedimento é feito com a gente sedada, anestesia geral. Parecia que eu tinha cochilado uns 5 minutos quando a anestesista me acordou dizendo que já tinham acabado. O meu obstetra conversou comigo rapidamente dizendo que tudo tinha corrido bem, que foi simples e rápido. Voltei para casa no mesmo dia, senti cólicas ainda no dia seguinte, mas nada insuportável. Foi menos complicado do que eu pensava.

Depois disso sinto que estou reagindo bem. Ainda choro às vezes, mas é como se o luto estivesse indo embora. Eu me sinto muito aliviada de ter encerrado o processo. Nunca vou entender como ou por que isso aconteceu comigo. Mas eu aceitei que aconteceu, que eu não posso mudar a minha história e que eu e o Marcos lidamos com isso da melhor maneira possível, dentro das nossas limitações.