Relato de parto – parte 1

Na terça-feira, 16/12/14, acordei com uma cólica. Não dei muita moral e voltei a dormir. Outra cólica e eu acordo de novo. Me levantei e fui ao banheiro. Xixi, tudo normal. Pensei ‘nao é nada, logo passa, é só uma alarme falso’. Deitei novamente e logo o Marcos acordou. Continuei tentando dormir. Ele levantou e foi pra academia, ou correr, não me lembro.

Outra cólica e eu desisto de dormir. Levantei e fui pra sala ver TV. O Marcos chegou e me pegou na sala. ‘Uai, o que ta fazendo acordada?’ Eu: ‘Estou com umas fisgadas, não me deixam dormir. Quando eu apago, elas me acordam.’ Ele fez um café pra nós, tomou banho e foi para o trabalho. ‘Está tudo bem amor, fica tranquilo, qualquer coisa eu ligo ta?’ Nem dei bola para as cólicas. Duravam menos de 10 segundos e eram totalmente suportáveis, bem fracas, vinham a cada meia hora ou mais.

Mexi na geladeira e achei uma mandioca cozida. Decidi fazer um nhoque. Fiz a massa e o molho. Esse processo durou umas 2 horas. Quando vinha uma cólica eu parava e olhava o relógio da cozinha. Nesse meio tempo eu notei que as cólicas começavam a durar mais e o tempo foi diminuindo, bem aos poucos.

Falei com as amigas e minha mãe pelo telefone e whatsapp, mas preferi não comentar o que eu estava sentindo. Não quis avisar nem alarmar ninguém. ‘E se as cólicas parassem?’ Desnecessário avisar.

Marcos chegou do trabalho e relatei a ele o que eu estava sentindo. Almoçamos muito felizes, a ficha do trabalho de parto começando a cair, o nhoque delicioso. Eu comi MUITO! Gente, que fome de leão eu tinha! A gente conversava e eu comentei ‘Será que é nosso último almoço só nós dois? Já pensou que no próximo a Mariana pode estar aqui do lado de fora?’

Antes de voltar para o trabalho o Marcos ligou para o nosso obstetra. Eu não me recordo muito bem do diálogo, mas sei que o médico disse para ficarmos tranquilos e que se a coisa engrenasse, ligarmos de novo. Não tinha motivo para pânico, afinal eu não tinha perdido tampão, a bolsa não tinha rompido, dores suportáveis, eu me sentindo muito bem. Talvez o parto demorasse ainda.

O marido foi trabalhar e combinamos que, se a dor apertasse, eu ligaria e ele viria pra casa. Lavei as vasilhas do almoço, limpei o chão da cozinha. Já passava das 14h e eu decidi tomar um banho. A dor começando a ficar significativa. Pensei ‘ou o banho corta essas dores ou então engrena de vez’.

Saí do banho e comecei a cronometrar as contrações por aplicativo no celular. Eu não me recordo exatamente o tempo entre elas, mas creio que era algo em torno de 10 min. Fiz um chá forte de canela e fui rebolar na bola de pilates. Quando a dor vinha eu rebolava com força. Ali, sozinha, em casa, eu me sentia em paz. Estava tranquila e segura. Não desejei a presença de mais ninguém, não senti medo. Estava muito confiante

Sei que às 15h eu liguei para o Marcos: ‘A coisa engrenou. Termina o que você tiver que fechar por aí e vem pra casa tranquilo.’ Bolsa íntegra e nenhum sinal de sangue ou tampão. Às 15:30h ele chegou em casa e ligou para o médico. O obstetra disse para a gente ajeitar o que faltasse e ir pra Maternidade Curitiba, pois ele já estava com uma gestante em trabalho de parto lá. Mas pra não ter pressa, pois não tinha necessidade.

As contrações a essa altura vinham a cada 7 ou 8 minutos e já duravam mais de 30 segundos. Decidimos tomar um banho. Fizemos carinho na barriga, nos despedimos, oramos, falamos para a Mariana o que ia acontecer, que ela podia nascer, que estava tudo bem.

Fomos arrumar nossas malas, que não estavam prontas. Estava com 37 semanas e 6 dias. Eu não pensava que a Mariana pudesse chegar antes das 38 semanas. A mala dela estava pronta, mas as nossas estavam inacabadas. Enquanto isso a gente lá monitorando as contrações. O tempo entre elas diminuindo, cada contração durando mais e mais tempo.

A dor tinha aumentado e eu correndo do quarto da Mariana para o meu, pegando blusa de frio, xampu. Quando a contração vinha eu parava. Balançava o quadril e gemia. O Marcos ria das minhas caretas e isso me irritava. ‘Pára com isso, não tá vendo que tá doendo, cara chato!’ O marido foi esvaziando a bola de pilates pra gente levar junto. Percebi que ele estava me enrolando. ‘Anda logo com isso!’ E as contrações já vinham a cada 4 ou 3 minutos. Duravam quase um minuto inteiro.

Lembro que eu escolhi ir pra maternidade de vestido, sem calcinha. Vai que essa menina nasce no caminho! kkkkk Não sei a que horas saímos de casa. Carregando um monte de bolsas e a dor apertando. Sentei no banco de trás do carro e fomos.

Gente, que sofrimento ficar presa dentro do carro. Não conseguia me mexer e a dor aumentou. Eu queria continuar me balançando, mexendo o bumbum. Mas não dava. A dor vinha e eu lembro que erguia o quadril do banco e gemia. ‘Marcos anda logo!’. Parecia que aquele trajeto não ia acabar nunca, que agonia!

Estacionamos na rua da maternidade, pegamos a bolsa. ‘Marcos, cadê a bolsa da Mariana?’ E ele dizendo que tinha pego tudo que tava na sala. Fiquei doida! ‘Como que você não pega justamente a mala da menina?! A pobre vai nascer e não vai ter o que vestir!’ E ele tentando me acalmar.

Entramos na maternidade às 18h. Aí vem a burocracia pra internação. Aceitei o esquecimento da mala e voltei a me concentrar na minha dor. kkkk Andava no corredor da maternidade, a contração vinha, eu parava e rebolava. A essa altura eu gemia alto. O engraçado é que nos intervalos entre uma contração e outra eu conseguia conversar normalmente. Quando a contração vinha a cabeça esvaziava e eu entrava num tipo de transe.

Encontrei a outra paciente do meu médico andando pelos corredores com a doula. Trocamos umas poucas palavras e a enfermeira apareceu. Entrei numa sala e a enfermeira me ajudou a vestir a camisola da maternidade. Conversamos, ela sorria pra mim perguntando coisas da minha gravidez, aferiu minha pressão.

A médica entrou e escutamos o coração da Mari. Tudo perfeito. Me avisou que ia fazer o toque. A médica foi muito gentil e me olhou sorrindo ‘Você já tem 6 cm!’. Fiquei muito feliz, tinha medo de chegar lá e a médica constatar, sei lá, míseros 2 centímetros. Eu falei que meu exame de streptococo era positivo. Ela me disse que ligaria para o meu médico e eu subiria para o quarto para tomar o antibiótico.

Voltei para o corredor. Feliz e gemendo. O Marcos ainda na recepção resolvendo papelada. ‘Amor, 6 cm!’ Liguei pra minha mãe no intervalo das contrações:

Eu -‘Oi mãe, tudo bem? Onde a senhora está? Bom, eu estou na maternidade.’

E ela: -‘Mas já?!’

e me encheu de perguntas. Eu lembro de dizer que estava com 6 centímetros e estava indo para o quarto. Disse que estava bem e que ela e meu pai não precisavam sair de lá correndo.’ Venham amanhã’.

Desliguei o celular e vi meu médico chegando! ‘Oi Tammy, vamos dar uma conferida, ok?’ Ele naquela calma de sempre. Que toque dolorido! ‘Opa, já tem 7 cm aqui! Você é boa nisso?! Sobe para o quarto, já mando o antibiótico’.

trabalho de parto

Finalmente cheguei no quarto e corri para o banheiro. O milésimo  xixi e senti uma meleca. Era o tampão saindo. Marcos enchendo a bola e a enfermeira chegou com a medicação. ‘Você precisa se deitar na cama para eu pegar sua veia’. Não queria me deitar, mas obedeci e logo ela pegou a veia. Colocou o soro e eu ‘O que tem aí? Só o antibiótico né?’ Ela fez que sim. Meu médico passou na porta do quarto e avisou que iria ver a outra paciente e que logo me veria de novo.

Bola de pilates

Desci da cama e fui pra bola de pilates. A dor já era imensa, as contrações vinham como ondas, ficavam fortes, ficavam fracas, mas não cessavam. Parei de conversar. Me lembro que o Marcos quis cantar pra Mariana. E eu gemia: ‘Cala a boca! Pelo amor de Deus!’. Levantava, sentava. Ele pegou um suco pra mim na geladeira. Dei uns golinhos, mas não tinha vontade de comer nada. Tudo me incomodava.

DSCF2532Logo o soro acabou e eu pedi para chamar a enfermeira pra tirar aquele troço do meu braço. Que coisa mais chata aquilo! A enfermeira apareceu e tirou o soro, mas deixou o acesso na minha veia. Por dentro eu resmungava que nem uma velha doida, mas por fora era só aquela expressão de dor e gemidos.

Lembro do Marcos perguntando cadê meu médico que não aparecia. Eu estava alheia, concentrada rebolando sentada na bola. Logo o médico estava de volta. E outro toque. Esse doeu menos. ‘Ótimo, já está com 9 cm!’ E eu: ‘Mas já?!’ Era o medo dando as caras. ‘Não falei que você é boa nisso? Desce para o centro cirúrgico andando com calma, não tem pressa. Já te encontro lá’.

Continua…