Relato de parto – Parte 2

centro cirurgico1Descemos Marcos e eu pela rampa, comecei a ficar nervosa. ‘A Mariana vai nascer mesmo, eu vou parir! Meu Deus do céu, e agora?’ O Marcos feliz, carregando a nossa máquina fotográfica. A enfermeira me recebeu no centro cirúrgico. ‘Faz um coque no cabelo e coloca essa touca. Tira a corrente do pescoço e a aliança.’ Passei meu escapulário para o Marcos e a minha aliança. Aquela pontada no coração em tirar meus talismãs.

‘Entra ali nessa sala que o médico já vem’. Entrei lá sozinha e com medo. O relógio da sala marcava 20h. Uma dor insuportável já. Eu não tinha sensação de morte, nem gritava por socorro. Mas eu dava uns rugidos, tipo uma ursa. Rsrsrsrs Me lembro de olhar pela janela do centro cirúrgico e ver a cidade bonita de lá. Aquela cidade tão estranha agora era a cidade da minha filha. Me senti sozinha, sofri.

Entrou a instrumentista eu acho ou enfermeira e começou a ajeitar tudo. Um monte de objetos estranhos, bandejas, e eu ali querendo ao menos uma atençãozinha. Rsrsrs Ela muito concentrada não me deu bola. Eu apoiava as mãos na parede, erguia o bumbum e balançava para os lados. Senti vontade de chorar. Era a covardia.

centro cirurgico2Apareceu um médico, se apresentou ‘Sou o anestesista Dr Fulano, essa é minha enfermeira. Você vai querer analgesia?’ E eu ‘cri cri cri’. kkkkk Eu não consegui responder, mas balancei a cabeça negativamente. Ele insistiu. ‘Vou esperar meu médico chegar.’

Logo chegam meu médico e o meu marido. Aleluia! Marcos veio tirando umas fotos já. O obstetra me pergunta se quero anestesia. Eu pergunto o que ele acha e ele disse: ‘Agora a anestesia não vai atrapalhar. Você já dilatou tudo, acho que vai ajudar a ser mais rápido’. Lógico que eu aceitei a anestesia, depois dessa! Rsrsrsrs

Sentei na maca e lá vem o anestesista com a enfermeira dele. Meu marido sai com o obstetra e eu notei que ele estava contrariado porque aceitei a anestesia. Nós queríamos parto natural, mas aceitei a sugestão do médico. Fingi que não notei a contrariedade dele.

A enfermeira se abaixou no nível dos meus olhos como se eu fosse uma criança. ‘Olha, você tem que ficar bem encolhida. Você está cansada e com dor, mas já vai ficar tudo bem. No intervalo das contrações o Dr vai aplicar a anestesia, ta?’ Eu acenei com a cabeça. O médico começou o procedimento e eu gemia pra ela ‘Tá vindo, tá vindo a contração.’ O médico parava e depois retomava. Eu resmungava, e ela cochichava pra mim ‘vai passar, calma, já vai acabar e a dor vai amenizar’.

Eu não resmungava somente pela dor, mas pelo incômodo daquela posição. Por que eu não queria me encolher, eu queria me esticar! Eu não queria me deitar, eu queria andar, ficar de pé! A essa altura eu já questionava por que eu tinha aceitado a anestesia.

O anestesista terminou e me disse que eu tinha que ficar deitada para a anestesia agir. A dor era pior ali deitada. Ele perguntava ‘E agora tá doendo menos?’ e eu ‘Não, tá doendo mais!’. O obstetra e o Marcos voltaram. Ele pegou na minha mão e me senti melhor, comecei a achar que a anestesia estava funcionando porque eu fui meio que recobrando o raciocínio.

Em algum momento eu consegui falar para o anestesista que sentia menos dor. O obstetra então ergueu a maca e me colocou tipo posição ginecológica, só que mais sentada. Fez o toque: ’10 centímetrosTammy!’. E eu soltei um grito: ‘Ainda tá doendo, gente!’ kkkkkk O anestesista veio e me disse ‘Olha, eu amenizei a dor da contração, mas você vai sentir o parto’. Pensei: ‘Mas esse cara não anestesiou tudo não?!’

Eu estava sentindo a Mariana entrar no canal de parto. Sentia o corpinho dela passando dentro da minha bacia. Que sensação mais estranha e dolorida! O médico: ‘Quando você sentir uma pressão lá em baixo, você faz força, ok?’ E na minha cabeça: ‘Pressão? Que pressão? Cadê a vontade de empurrar? Cadê puxos?’ A anestesia tirou parte da dor e da sensibilidade, não sentia vontade de empurrar.

Esbocei uma forcinha. De repente parece que eu senti algo lá embaixo e dei uma empurrada. Chamei alto: ‘Vem Mariana! Vem filha!’ O médico disse que ia romper a bolsa e pegou uma agulha gigante, parecia de tricô, com um ganchinho na ponta e tascou lá dentro. Segurou minha barriga por fora e forçou. Que DOR!

‘Tammy, agora você empurra forte, ok?’ Perguntei: ‘Você não vai fazer episio não, né?’ Ele calmamente disse que não. ‘Tô confiando em você hein?!’ Ele começou a rir de mim. Eu sorri também e disse que ia empurrar com força. Ele massageava o períneo e o líquido vazava.

Agora com a bolsa rompida a tal pressão apareceu e eu empurrei com força. Algumas forças longas e o médico falou: ‘Parece que tem um cabelinho ruivo aparecendo aqui!’. Marcos correu pra ver e me disse todo empolgado: ‘Não! Tem um cabelo preto aí, igual ao do pai dela!’.

Nós sorrimos com a graça do meu médico. O Marcos sacou a câmera de novo. Senti uma coragem enorme. Fechei os olhos e empurrei com toda a força que eu podia. O Marcos me apoiava com um dos braços nas minhas costas e eu segurava meus joelhos com as minhas mãos. Não sei se eu empurrei duas ou três vezes.

O obstetra: ‘Pode parar de empurrar, ela já tá aqui, olha! É sua, pode pegar!’ A anestesia amorteceu a minha vagina e eu não senti ela sair. Atônita, abri os olhos e estendi os braços na direção dela. Eu não enxerguei direito, eu fiquei fora de mim. (Pelas fotos eu vi que, quando eu a peguei, ela ainda tinha metade do corpo dentro de mim). Só lembro da sensação: era molhada e muito macia. Parecia que minhas mãos iam atravessar o corpinho dela, de tão macio.

DSCF2542Trouxe a Mariana para o meu colo e lembro que na minha cabeça só passou uma coisa: ‘Como ela é pequena!’. rsrsrsrs Eu idealizei dizer muitas coisas nesse momento, mas na hora eu sentia uma euforia, um alívio imenso de tê-la ali. Não falava, pensava ‘Ela nasceu, ela nasceu, ela nasceu!’ Toquei o corpinho dela e me dei conta que o pediatra tinha se materializado ali. Ele esfregava as costinhas dela.

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Ela não chorava, abriu os olhos e começou a dar uns miadinhos. Olhei para ela, toquei as mãozinhas e consegui verbalizar ‘É a mamãe, filha, sou eu’. Eu era mãe, eu tinha parido aquela menina. O Marcos emocionado batendo umas fotos nossas. Era surreal. Aquele cheirinho úmido de cria. Olhei o relógio na parede: 20:45h.

Não sei quanto tempo ficamos assim. Percebi que o pediatra fez um sinal para o obstetra. ‘Pai, quer cortar o cordão?’ O Marcos deixou a máquina fotográfica e cortou o cordão. Não vi se o cordão tinha parado de pulsar ou não. Eu só olhava pra Mariana.

O pediatra  a levou e o Marcos foi junto. Escutei ela chorar, estava sendo aspirada. Me dei conta que o obstetra ainda estava ali. Senti uma pressão e um sangue espirrando. A placenta saiu e ele me mostrou. Era grande e bem vermelha. Ele me examinou e eu perguntei se tinha lacerado. Ele disse ‘Nadinha, está intacta. Eu já te disse, você nasceu pra isso’. Agradeci e ele saiu.

DSCF2555Logo o Marcos voltou com a Mari no colo, fez mais fotos, namoramos a nossa bebê por uns instantes e ele foi para o berçário com ela. Fiquei sozinha e orei a Deus agradecendo pela vitória. Somente nesse momento eu chorei. Uma gratidão a Ele e à vida que me presentearam com aquele parto saudável e uma bebê perfeita. Uma felicidade sem fim tomou conta do meu coração.

Veio uma enfermeira e me limpou, tirou meu acesso da veia. Passei para uma maca e ela me deixou no corredor do centro cirúrgico. Vi uma sala aberta onde acontecia uma cesárea. Na outra sala a plantonista atendia outro parto normal.

Fiquei ali de molho no corredor ‘em recuperação’ esperando o anestesista me liberar. Pensava: ‘Quero sair daqui, quero amamentar minha filha!’. Mas o anestesista agora estava atendendo o outro parto e eu tive que esperar. Fiquei ali mais de uma hora sozinha. Uma enfermeira passou e eu questionei: ‘Vocês não vão me liberar mais nunca?!’ ela sorriu e me respondeu: ‘Dorme, mãezinha, descansa’. Eu pensei: ‘Descansar?! Me tira daqui. Como que eu vou dormir, quero ver minha filha!’

Vi o pai do parto normal passar sorridente com o bebê no colo e o pediatra. Pensei que há alguns minutinhos ali naquele corredor tinham passado o Marcos e Mariana, na mesma alegria. Finalmente o anestesista voltou. Eu estava me coçando e ele disse que era normal, para eu tentar não coçar. Disse pra enfermeira que eu estava liberada e ela ligou pra alguém vir me buscar. Esse alguém demorou mais uma eternidade para aparecer.

Finalmente eu saí daquele corredor e encontrei o Marcos com a Mariana naquele bercinho transparente! Subimos para o quarto. Deviam ser umas 22h já. Lá estava um colega de trabalho do Marcos que tinha trago a mala com as coisas da criança. Agradecemos e dispensamos o amigo. Duas enfermeiras me ajudaram a tomar banho. Me vesti e finalmente peguei a Mariana de novo.

10365738_752994911444393_1810817456831170593_nEla estava enrolada nos paninhos da maternidade ainda, pois a gente pediu que não dessem banho nela. Ainda tinha um pouco de vérnix, mas a pele já tinha absorvido quase tudo. Conferimos cada pedacinho dela. Na manta dela tinha um cartão com alguns dados: 46 cm, 2,800 kg e recebeu apgar 9/ 10. Colocamos uma fralda e pegamos sua roupinha na mala. Eu a vesti pela primeira vez com um macacãozinho amarelo. Ofereci o seio pra ela, mas ela não se interessou muito não. Deu uma lambidinha, uma chupadinha e só.

Falamos com a família no telefone e meus pais disseram que viriam no dia seguinte. Chegou um jantar para mim e eu matei tudo. kkkk Não lembro mais o que era, mas eu estava com fome. Entrei no facebook e vi que a minha irmã tinha avisado que eu estava na maternidade, e depois quando a Mariana nasceu. Já tinham várias felicitações e eu também fiz um post dando notícias nossas.

Ficamos ali babando nela, namorando. Só nós três no quarto escurinho. Logo ela dormiu, coloquei no bercinho. O Marcos apagou também mas eu não conseguia dormir! A euforia era muita! Muita felicidade. Na minha cabeça passavam flashs daquele dia. Era uma sensação engraçada, eu não sabia como agir, o que fazer. A Mariana acordou e percebi que ela estava com frio. Ofereci o seio mais umas vezes e ela pegou. Mamou por alguns minutos e a deitei do meu lado, na cama.

Ela queria a mim, o meu colo. Fiquei abraçada com ela o resto da noite. Eu não dormi, somente dei uns cochilos. Quando o dia estava clareando percebi que ela apagou. Então coloquei no bercinho ao lado da cama e aí eu finalmente dormi por algumas horas. Na manhã seguinte tudo era real, acordei e era mãe, tinha uma família ali no quarto daquela maternidade!

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2 ideias sobre “Relato de parto – Parte 2

  1. Que relato emocionante! Já sabia da história, mas sem tantos detalhes. A plasticidade do texto fez com que me sentisse junto de vocês na hora do parto. hahaha. Que a Mariana, você e o Marcos sejam muito felizes!!! 😀

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